Alerta: contém spoilers fortíssimos sobre o filme homônimo, de 1994, que é simplesmente sensacional.
Numa época em que o mal era considerado fedorento e repugnante, quando quem contava histórias o segurava à distância, com uma pinça comprida, e o jogava no lixo o quanto antes, essa história apareceu para encantar a todos no Natal.
Ela é contada pela visão de uma criancinha a quem foi negada a mágica do Natal, com um Papai Noel sorridente e a expectativa milagrosa de uma satisfação que podia parecer impossível mas estava logo ali na esquina, embaixo de uma árvore, grande ou pequena, montada num grande salão ou numa casinha humilde.
A obra discute a crença geral no Papai Noel num tempo cada vez mais materialista. Entre risadinhas de desprezo (até aqui as famigeradas risadinhas) e crianças fofíssimas, fica bem claro quem está certo. De minha parte, aprendo com os grandes e sigo a atitude do meu colega tricolor, Nelson Rodrigues, que certa vez, perguntado se acreditava no bom velhinho replicou, inflamado:
- "Se eu acredito no Papai Noel? Ora, eu SÓ acredito no Papai Noel".
O católico e moralista escritor dizia que não há coisa mais importante que a crença no transcendente, na beleza possível no coração dos homens, na glória de Deus, sempre tão generoso quanto misericordioso, nos enchendo de graças, quer saibamos ou não.
No filme ninguém tem medo de parecer meloso, antiquado ou piegas. Pelo contrário, o filme traz uma sucessão de maravilhosas declarações de amor ao que é Bom, Belo e Verdadeiro. E, no cerne disso tudo, Deus.
A história rapidamente evolui para um julgamento onde o que está sendo realmente decidida é a existência do Papai Noel. "Papai Noel precisa de você!" - dizia um anúncio numa revista. E o povo não deixou barato e se reuniu aos milhões para apoiar tudo o que o bom velhinho representa.
Cartazes lindos dizendo "Eu acredito" são mostrados junto com demonstrações de todo tipo de gente boa, de construtores até pilotos. Aquele espírito que pode ser agressivo e resmungão, mas que mata e morre para salvar uma criancinha em perigo, para depois arrrebentar quem a estaria ameaçando. Lindíssimo!
A fofuríssima criancinha do filme, a Matilda do outro filme, vivida pela Mara Wilson e suas bochechas milagrosas, queria apenas uma casa, um pai e um irmão de Natal, não necessariamente nessa ordem. O velho Kris arregalou os olhos quando soube, espantado. Mas não deixou de piscar o olho e deixar a nossa fofura ansiosa e esperançosa.

No final, Papai Noel ganha o julgamento para alegria de todos. O promotor derrotado se aproxima meio sem jeito e passa para o Sr. Kringle as recomendações dos seus filhos, por via das dúvidas. Depois, recebe a confirmação de que sua casa será visitada, apesar da perigosa antena velha do ano passado. É bom demais!
Vitorioso para delírio de todos, Papai Noel dá uma risada que ecoa por toda a cidade, atenta nas ruas para torcer por seu querido direito de sonhar e de ser bom. A comemoração é gigantesca e bem na hora, pois a sentença saiu na véspera do Natal e o Sr. Kringle tinha muito a fazer.
Como não havia uma redenção que escapasse nesse mar de alegrias, até os funcionários do vilão modernoso com seus brinquedos que nenhuma criança queria secretamente estavam torcendo pelo Papai Noel e mostram seus bottons de "Eu acredito" entre sorrisos cúmplices.
E não é que o velhinho dá um jeito de casar a mãe da menininha com seu pretendente, o advogado que venceu o julgamento? Melhor ainda, a história toda gera um mega bônus que se transforma na casa dos sonhos da cética mamãe, já nem tão descrente. O último pilar da sua resistência cai quando a criança revela que tinha pedido ao bom Noel um pai, uma casa e mais uma coisa. De repente, desconfiada, a mamãe pergunta à filha qual foi seu terceiro pedido. A menina, feliz e brejeira, dá um largo sorriso e solta, às gargalhadas:
- "Um irmãozinho!"
Claro que já estava no forno! Crescei e multiplicai-vos, yeah!
Esse filme para ser maravilhoso tinha que piorar muito. Assistam já! Hohoho! Feliz Natal!
Viva Cristo Rei!